O primeiro destaque surge com a confirmação do poder de influência e de mobilização que a televisão continua tendo no Brasil. Os índices de audiência não são os mesmos de anos atrás, mas a exemplo de Avenida Brasil, a televisão aberta ainda continua sendo o grande veículo de massa. As redes sociais, a internet e os dispositivos móveis tem construído um cenário alternativo para a comunicação, mas o interessante é que de certo modo todas as novas alternativas acabam levando o espectador pra frente da TV. Os novos meios de comunicação acabam não se sustentando e vendo-se obrigados a interagir com a televisão.
O ONS (Operador Nacional do Sistema), que coordena a operação de energia no país, declarou que estava preocupado com um possível apagão após o último capítulo da novela Avenida Brasil. Em geral, os capítulos finais provocam um efeito que os especialistas chamam de rampa de carga, que é o aumento súbito do consumo de energia elétrica. Quando a novela termina, as pessoas retomam as atividades: abrem a geladeira, vão tomar banho, acendem a luz. Em janeiro do ano passado, por exemplo, a novela Passione elevou em quase 5% o consumo de energia no minuto seguinte ao fim do capítulo.
Se em um primeiro momento o poder de influência da televisão passa pelas teses do discurso acadêmico, agora ele se comprova diante desta necessidade do governo de ter que se preparar para os instantes finais de um último capítulo de novela.
Outro ponto que merece reflexão é o crossmedia que foi construído em torno da novela. A Rede Globo sabe como ninguém falar em seus programas de sua própria programação, mas o mais interessante é ver quase todas as emissoras dedicaram horas de sua programação para falar de um produto da concorrência. Reforçando para seus telespectadores o convite para que assistissem, na Globo, o último capítulo da novela. Vale ressaltar que isso não aconteceu nas principais concorrentes: Record e SBT. Este efeito Globo nas outras emissoras também pode ter contribuído para esta mobilização que tomou conta das principais rodas de bate papo do Brasil.
Muitos brasileiros se identificaram com os personagens e isso, certamente, ajudou a novela a fazer sucesso. Parabéns ao autor que soube usar o método identificação para prender o telespectador em sua obra. A partir do momento em nos reconhecemos na televisão, queremos falar como os personagens, usar as mesmas roupas, ou até mesmo torcer por aquilo que achamos justo e certo. Doses de influência que recebemos toda noite e que vão tomando conta de nossas vidas e mexendo com a nossa realidade.
Quando a palavra FIM toma conta da tela e perguntas ficam sem respostas - Qual foi o fim de Santiago?, o menino Picolé não foi adotado por Nina e Jorginho?, qual o fim de Ágata? e a irmã de Nina, voltou para a Argentina? o que aconteceu com Bethânia? - temos a certeza que, de fato, estávamos diante da ficção. Afinal, histórias não deixam de existir, como cenas não gravadas de um capítulo de novela.
Acredito que estamos carentes de bons temas e de bons produtos na televisão, por isso vamos na onda e acabamos nos contaminando. Avenida Brasil foi uma boa novela e seus autores e atores merecem nossas homenagens, afinal mostraram ao mundo o quanto somos bons, também na arte de interpretar.