Documentos existentes no Museu D. Pedro I e Dona Leopoldina de Pindamonhangaba indicam que o primeiro santo brasileiro nasceu na cidade vizinha a Guaratinguetá, mas devotos contestam a informação e acreditam que os papéis não retratam a realidade.
No altar estavam a imagem de São Galvão ao lado de Nossa Senhora da Conceição da Luz e lotando o Campo de Marte, em São Paulo, aproximadamente um milhão e meio de pessoas. Com lágrimas nos olhos e com as mãos suspensas por causa de pequenas bandeiras, fiéis dos quatro cantos do Brasil comemoravam um notícia importante para os católicos. Emoção e felicidade podem ser as palavras usadas por nós para descrever o dia 11 de maio de 2007, data em que o papa Bento XVI declarou São Frei Galvão o primeiro santo 100% brasileiro. “Encaramos e definimos como santo o beato Antônio de Sant' Ana Galvão”, disse o papa às 10h08.
Daquele dia passaram-se pouco mais de um ano e a vida de pessoas ligadas intimamente com o processo de canonização mudou. A cidade de Guaratinguetá, há 176km da capital, tornou-se o mais novo ponto turístico religioso do país. Em média 150 mil devotos procuram a Igreja de Frei Galvão todos os meses. Guaratinguetá sofre com o movimento, mas os moradores não reclamam. “Temos problemas, mas ao mesmo tempo temos a honra de sermos acolhedores da fé”, disse emocionado o devoto e morador de Guará, Jóse Carlos Basílio, 67. Hoje, de acordo com a Secretaria Municipal de Turismo são 70 hotéis e 2.500 leitos.
Apesar dos números que não param de surpreender os fiéis que estiverem a procura da verdadeira origem do santo brasileiro encontrarão divergências, pois não há nenhum registro que comprove o nascimento do beato Antônio de Sant' Ana Galvão na cidade de Guaratinguetá. Inúmeras são as histórias, mas poucas são as comprovações.
Encontrados nos arquivos do Museu Histórico e Pedagógico Dom Pedro I e Dona Leopoldina papéis que datam inicialmente de 1943 indicam que Frei Galvão nasceu em Pindamonhangaba.
O primeiro documento observado trata-se de um convite para uma festa de Nossa Senhora do Rosário, a ser realizada na Capela dos Corrêas, no bairro do Tetequéra. Junto a este convite está uma retrospectiva histórica da capela, e junto a esta retrospectiva podemos encontrar registros históricos de que Frei Galvão nasceu e foi batizado na Capela do Corrêas em Pinda.
Documentos escritos por padres da Capela dizem que Frei Galvão nasceu em terras do município vizinho de Guará. O local não existe mais, pois em meados do século XIX, uma chuva destruiu a construção religiosa e levou para os rios e riachos todos os objetos da capela original. Segundo Ceres Salles, diretora do Museu Histórico, não há a possibilidade do bairro Tetequéra já ter pertencido a cidade de Guaratinguetá. “Antes de revelar a existência deste convite conversei com professores e eles me garantiram que este bairro nunca foi da cidade vizinha. Tive medo de revelar a existência destes papéis, mas depois de refletir muito e conversar com amigos resolvi buscar a verdade”.
Com o objetivo de certificar a veracidade destes registros históricos, buscamos no “Arquivo Municipal” informações biográficas da mãe de Frei Galvão, D. Isabel Leite de Barros, que é natural de Pinda. Chegamos, portanto, a um livro de Athayde Marcondes, que imprime em páginas amarelas os principais nomes e localizações de Pindamonhangaba, de 1672 a 1907, quando saiu a primeira edição da literatura.
Podemos observar na obra um verbete, na página 88, que conta a história da Capela do Corrêas, localizada em um sítio no bairro Tetequéra e de propriedade de José Corrêa Leite (que fixou residência em Pinda por volta de 1720 e tornou-se rico agricultor e proprietário de dezenas de escravos). Na página 281 desta mesma obra podemos encontrar parte do testamento, datado de 29 de novembro de 1743, de José Corrêa Leite que cita como um de seus testamenteiros Dom Antônio Galvão de França, pai de Frei Galvão. Após sua morte a capela ficou com seu sobrinho, o padre José Corrêa Leite, filho de Dom Gaspar Corrêa Leite e Maria Leite de Barros, mesmo sobrenome de Isabel Leite de Barros, portanto irmã da mãe de Frei Galvão.
A professora de história Sônia Brandão afirma que em meados do século XVIII as mães tinham seus filhos próximos a seus familiares, portanto se a mãe de Galvão vivia em Tetequéra, certamente o Frei nasceu junto a D. Isabel em Pindamonhangaba. “Esta é uma possibilidade viável, a história nos conta isso em diversas oportunidades. Os documentos apresentados nos revelam mais do que informações, são registros de costumes, que na época eram muito preservados. A partir de tudo o que estudei ao logo destes 25 anos de profissão, não tenho medo de dizer que isso pode ser uma realidade”.
A informação chama a atenção e é entendida por diretores do Museu Frei Galvão como uma provocação da diretora Ceres Salles. “Isso é um absurdo, não existe esta possibilidade, todos sabem que a história do santo foi construída em Guaratinguetá. Não há motivos, um ano depois, para Pindamonhangaba revindicar o título de terra de Frei Galvão”, comentou Teresa Maia, diretora do Museu de Guará.
Ceres Salles rebateu as críticas e afirmou que o objetivo nunca foi esse. “Descobri este convite depois que alguns veículos de comunicação me procuraram para saber se no Museu existia algo que contasse a história do primeiro santo brasileiro. Num primeiro momento achei que nada existia, mas pedi para que uma estagiária procurasse em umas caixas que estavam guardadas no porão. Foi então que cheguei a estes documentos. Na verdade nunca quis contestar a história de Galvão em Guaratinguetá, o que fiz foi levar ao conhecimento de todos algo que encontrei”.
O especialista em negócios e turismo Marcos Paulo Cesarine afirma que esta 'briga' pelos direitos de identidade de Frei Galvão pode interferir na economia das cidades. “Guaratinguetá recebe um grande número de turistas e isso acaba injetando dinheiro na cidade, pois os produtos de Frei Galvão são comercializados, além de que as pessoas de outros estados precisam se alimentar, dormir, etc”.
De acordo com levantamento da Secretaria Municipal de Turismo, em abril, 11% dos romeiros da “capital religiosa” do País, Aparecida do Norte, a 8 km de Guaratinguetá, visitaram também a cidade de Frei Galvão. A estimativa é que em três anos Guará, hoje com 110 mil habitantes, receba 50% do movimento de Aparecida, por onde passam quase 9 milhões de pessoas por ano: esta conta resultará em mais de 86 mil fiéis por semana. Nelson Baracho dos Santos, secretário de turismo de Guaratinguetá, informou que a Prefeitura está preparando ações que visam organizar as visitas, de modo a não interferir no dia-a-dia da cidade.
Perguntada a respeito desta possível revindicação Ceres Salles faz questão de descartar esta possibilidade. “Tenho amigos em Guará, só queria fazer o registro deste convite que encontrei no nosso Museu. Mesmo que Frei Galvão tenha nascido em Pindamonhangaba, ele foi muito criança para Guaratinguetá e lá construiu sua vida de luta e fé”.
Atualmente as cerimônias em homenagem ao primeiro santo brasileiro são realizadas na Igreja de São José e Frei Galvão. O local tem capacidade para abrigar 700 pessoas. No altar destacam-se os quadros doados pelos pais de Edson Galvão Nogueira (parente do santo, pertencente a 4ª geração da família), José Galvão Nogueira (já falecido) e Rosa Barbosa Galvão Nogueira e pelo deputado Marcelo Ortiz. Um santuário já começou a ser construído. As obras da primeira fase do projeto acontecem em um terreno ao redor da Igreja de Frei Galvão, que fica em uma zona rural a 15 minutos do Centro. Elas devem ser concluídas em 15 meses e incluem uma sala dos milagres, confessionários, setor de distribuição das pílulas, praça de alimentação coberta, 30 banheiros, fraldário e estacionamento para 150 ônibus e 200 carros. O local, com 2 mil metros quadrados, poderá receber até 150 mil romeiros.
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Fabricio Oliveira
Estudante do 4º ano de jornalismo - FATEA/SP
fabriciofbo5@gmail.com