Entre a cruz e os tempos
por Fabricio Oliveira
A Igreja Católica vem conquistando a manchete dos principais veículos de comunicação do país. Recentes e polêmicas declarações tem movimentado a opinião de católicos e não-católicos. Dogmas pré-estabelecidos ainda no Império Romano nos fazem refletir a respeito do papel desta importante instituição religiosa em nossos novos tempos.
As singulares discussões deram-se início com maior intensidade no início deste mês, quando o arcebispo da diocese de Olinda Recife, José Cardoso Sobrinho, excomungou todos os envolvidos em um aborto de uma menina de nove anos [o fato: a criança ficou grávida depois de ter sido estuprada pelo padrasto, segundo os médicos a menina não tinha condições físicas de dar continuidade a gestação].
Especialistas afirmaram na ocasião que a decisão de José Cardoso foi no mínimo precipitada, já que o religioso não teria levado em conta um dos principais valores da Igreja, a misericórdia. Imediatamente à decisão o Vaticano publicou uma resposta. O artigo é assinado pelo presidente da Pontifícia Academia para a Vida, o arcebispo Salvatore Rino Fisichella. Ele diz, sobre a menina de nove anos: "Antes de pensar em excomunhão, era necessário e urgente salvaguardar sua vida inocente, devolvendo a ela um nível de humanidade, da qual nós, homens da Igreja, deveríamos ser os anunciadores e mestres". O monsenhor Fisichella afirma, ainda, que os médicos merecem respeito profissional e que eles atuaram em defesa da vida da menina.
Dias depois outra declaração polêmica foi propagada pelo menor país do mundo. Um longo artigo publicado pelo L'Osservatore Romano, por ocasião do Dia Internacional da Mulher, disse que a máquina de lavar talvez tenha feito mais pela liberação da mulher no século XX do que a pílula anticoncepcional ou o acesso ao mercado de trabalho. O título era "A Máquina de lavar e a liberação das mulheres - ponha detergente, feche a tampa e relaxe". "O que no século XX fez mais para liberar as mulheres ocidentais?", questiona o artigo, escrito por uma mulher. "O debate é acalorado. Alguns dizem que a pílula, alguns dizem que o direito ao aborto, e alguns (dizem que) o direito a trabalhar fora de casa. Alguns, porém, ousam ir além: a máquina de lavar."
Já o Papa Bento XVI em recente visita à África afirmou que a Aids "é uma tragédia que não pode ser superada com o dinheiro e nem com a distribuição de preservativos, os quais podem aumentar os problemas". A pergunta que fica é: como proibir o uso da camisinha? Conforme relatório anual do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids, existem no mundo aproximadamente 33 milhões de pessoas vivendo com HIV/Aids. A África Sub-ariana é a área mais afetada, com aproximadamente dois terços do total mundial (22,5 milhões de pessoas); desse número três quartos são do sexo feminino. A região também concentra 76% das mortes pela doença.
Até podemos concordar que a modernidade tem chegado a pontos extremos. Busca-se em muitos casos uma liberdade que vai de encontro aos princípios morais de uma sociedade civilizada. Mas isso não significa que nossas leis, divinas ou não, devam ser congeladas. É preciso buscar adaptações.
Católico, Carlos Alberto Faustino, se diz confuso com tantas polêmicas. “Penso que a Igreja deve buscar um equilíbrio, afinal o mundo mudou. Novas culturas surgiram e portanto novos hábitos foram incorporados ao nosso cotidiano. Agora entendo também que é difícil abrir mão da palavra. Como desdizer o que Deus nos pregou? Os homens religiosos não podem nos dizer que agora isso pode e isso não pode. É uma forma de questionar as leis divinas. A Igreja está em uma situação extremamente difícil”.
Medidas conservadoras talvez sejam o principal motivo para o avanço de outras religiões. Mesmo assim os cristãos ainda continuam supremos entre os mais diversos povos. Um total de 17,4% da população mundial é católica, contra 19,2% que é muçulmana, indicou monsenhor Vittorio Formenti, responsável do Anuário Pontifício do Vaticano. No entanto, quando se somam todos os cristãos (católicos, ortodoxos, anglicanos e protestantes) a porcentagem alcança 33% da população mundial. A população brasileira é majoritariamente cristã (89%), algo em torno de 155 milhões. O Protestantismo é o segundo maior segmento religioso do Brasil com, aproximadamente, 26,2 milhões de pessoas (15,4% da população), segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas).
Com trabalhos dedicados ao catolicismo há mais de 30 anos, Maria Lúcia Salgado, falou a nossa reportagem sobre este momento da Igreja Católica. “Diariamente vou a missas, trabalho com entidades carentes e participo de grupos de oração na Comunidade Canção Nova, em Aparecida e aqui em Pindamonhangaba. Os padres, ou melhor a Igreja, não pode deixar de se atualizar. Mas isso não significa que os valores e as hierarquias criados por Deus sejam destruídos. Adaptar-se a estes novos tempos significa construir um diálogo entre a instituição e seus fiéis. É preciso divulgar notas esclarecedoras, promover conversas, como as que temos com nossos filhos. Se você precisa falar, alguém tem que estar disposto a te ouvir. Faz-se necessário renovar a catequese, ter um interesse maior pelo rebanho”.
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Fabricio Oliveira
jornalista
fabriciofbo5@gmail.com