Gênero jornalístico opinativo: a construção das editorias e dos textos dissertativos-argumentativos

Pindamonhangaba /SP

Breve Resumo: Ao longo desta pesquisa proponho analisar alguns elementos do primeiro caderno do Jornal Folha de S. Paulo. Saber como se dá a construção dos editoriais, textos de opinião que representam grande número de profissionais, entender a relação gênero jornalístico e publicitário na editoria Brasil e discutir a posição burocrática na construção e elaboração de matérias da editoria Mundo.

Para tanto, temos como base, obras dos jornalistas José Marques de Melo, Nilson Lage, Mário Erbolato e Luis Beltrão, além do mais recente Manual de Redação e Estilo do Jornal Folha de S. Paulo e um trabalho apresentado no INTERCOM Sudeste em 2006. O presente trabalho faz uso de dados estatísticos e prova que o Editorial da Folha é mais do que um espaço de opinião do jornal, é resultado de articulações de todos que estão envolvidos na produção financeira do mesmo. Que o grande número de anúncios na editoria Brasil provoca o que chamamos de hibridização da informação e que a editoria Mundo é construída diariamente a partir de um trabalho burocrático de redação.

Objetivos: Tentar-se-á contextualizar o gênero jornalístico opinativo editorial e entender de que forma ele é construído pelo Jornal Folha de S. Paulo.
Descrever o processo de editorialização dos cadernos Brasil e Mundo do Jornal Folha de S. Paulo e perceber de que forma estas editorias são construídas diariamente. Entender quais critérios são usados para publicar uma notícia ou reportagem.

Introdução: Participar de um processo de construção jornalística não é algo simples, muito menos para qualquer pessoa. É preciso ter preparo e conhecer algumas regras, que como em outras profissões, são extremamente importantes para o desenvolver de nosso trabalho. O que observamos nos impressos brasileiros é a falta de uma linguagem linear, ou seja, cada um escreve de uma forma. Nem sempre as regras, que aprendemos na faculdade, são respeitadas.

A seriedade, a tradição e a credibilidade conquistadas durante estes quase 100 anos da Folha, num primeiro momento, nos fazem acreditar que as tão discutidas regras são aceitas sem problemas por seus profissionais. Mas durante este trabalho iremos descobrir o quede fato acontece. Durante três dias de outubro de 2006 e julho de 2007coletamos amostras do jornal Folha de S. Paulo. Amostras de acertos e erros foram usadas para que pudéssemos construir estatísticas e caracterizar melhor os resultados obtidos. Não há dúvida de que pesquisas como esta nos mostram realidades muitas vezes imperceptíveis aos olhos do leitor leigo. Ou ainda, quem lê manuais de redação ou livros da área nem sempre consegue captar o que de fato acontece, é preciso vivenciar, coletar dados, comparar, refletir e principalmente buscar respostas de qualquer forma. É preciso ter compromisso com a verdade, mas é preciso saber participar, na medida certa, da construção do processo.

Notícia é a informação transformada em mercadoria com todos os seus apelos estéticos, emocionais e sensacionais; para isso a informação sofre um tratamento que a adapta às normas mercadológicas de generalização, padronização, simplificação e negação do subjetivismo. Além do mais, ela é um meio de manipulação ideológica de grupos de poder social e uma forma de poder político. Ela pertence, portanto, ao jogo de forças da sociedade e só é compreensível por meio de sua lógica. (MARCONDES Filho, 1986:13)

O Editorial: O editorial “é o gênero jornalístico que expressa a opinião oficial da empresa diante dos fatos de maior repercussão no momento”, segundo a definição do professor José Marques de Melo (1987:91). Mas, segundo essa definição, a opinião da empresa decorre das relações de propriedade da instituição jornalística. Isto é, os editoriais não refletem apenas a opinião de seus proprietários nominais, mas o consenso das opiniões que emanam dos diferentes núcleos que participam da propriedade da organização.

É de se notar que a definição do gênero tal como esta expressa no Manual Geral de Redação da Folha limita-se à descrição do editorial, em seu aspecto mais superficial: “Editorial é o texto, sempre não assinado, onde o jornal exprime sua opinião”. Não se discute a natureza ou o conteúdo desta opinião, conferindo a impressão de que a opinião da empresa é algo autônomo, infenso às leis de mercado, um resultado das opiniões dos editorialistas do jornal, muito mais do que a soma (ou choque) de interesses muitas vezes contraditórios. Os leitores incautos do Manual terão a impressão, ao ler essa definição de editorial, que o editorialista da Folha sempre expressa “opinião” do jornal, quando na realidade sua função é articular um discurso que consiga conciliar as opiniões de todos que sustentam financeiramente a empresa jornalística.

O editorial deve ser entendido, assim, como um espaço de contradições:

Seu discurso constitui de articulações políticas e por isso representa um exercício permanente de equilíbrio semântico. Sua vocação é a de aprender e conciliar os diferentes interesses que perpassam sua operação cotidiana. (MELO, 1985:92)

Durante seis dias analisei os editoriais do Jornal Folha de S. Paulo (22/10/06, 24/10/06, 27/10/06, 15/07/07, 18/07/07 e 21/07/07). Os resultados obtidos foram os seguintes:
O Jornal Folha de S. Paulo, via de regra, publica diariamente dois editoriais, que estão localizados logo na segunda página, atrás da capa do primeiro caderno. Durante estes seis dias em que analisamos este espaço da Folha encontramos alguns indícios desta contradição de opiniões. No primeiro dia analisado os dois textos trouxeram opiniões políticas em que um diz acreditar que o 2º turno das eleições provocou um confronto de posições mais democrático, superando os padrões do marketing eleitoral, ao mesmo tempo em que o texto abaixo critica a superficialidade deste confronto de idéias, nomeando-o assim de um “Exemplo Colombiano”.

Em um outro dia ao mesmo tempo em que um critica a atitude de políticos frente a uma provável autonomia da Polícia Federal, defendendo nas entrelinhas o PSDB. Outro critica a natureza das dívidas do Estado de São Paulo, governado por aliados dos políticos tucanos.
Apesar de todas as contradições que pudemos constatar durante esta análise, o mais importante é ressaltar que o editorial é mais do que a opinião de um determinado veículo sobre determinado assunto. É o produto que a empresa jornalística vende ao leitor, através da sua opinião, desvendamos sua posição ética e profissional, dando assim para este ou aquele veículo a credibilidade que julgamos ser a correta. Os jornais não são mais independentes, são comercialmente servidos de capital privado, por isso aqueles anunciantes que encontramos na Folha são compatíveis com o que diz o editorial da empresa Folha da Manhã.

O Caderno Brasil: Este próximo passo de nossa pesquisa não visa fazer uma análise de regras do modo de escrever jornalístico e sim entender o que vale mais, a publicidade ou a notícia.

Quando estudamos um processo diagramático descobrimos que antes das notícias os jornais de modo geral vendem seus espaços publicitários. Portanto este é o primeiro argumento que podemos colocar na balança para descobrirmos o que vale mais.

O Manual da Folha diz que os anúncios são parte do conjunto de informações que o leitor procura todos os dias no jornal. Que sua receita provém não apenas da venda dos exemplares do jornal, mas majoritariamente da venda de espaço para publicidade. O interesse do leitor, continua o Manual, tem sua prioridade sobre qualquer outro, inclusive o do anunciante. A Redação e a Diretoria Comercial são departamentos autônomos, sem relação de subordinação. Apenas a Direção de Redação esta autorizada a manter contato com a Diretoria Comercial, que tem prioridade na divisão do espaço do jornal. É ela que determina a distribuição dos anúncios nas páginas. Mas não deve subordinar o trabalho jornalístico aos interesses, presumidos ou manifestos, de anunciantes. A Folha não produz matéria paga, diz seu Manual, e ainda, também não publica informe publicitário sem deixar clara para o leitor essa condição.

Durante os dias analisados descobrimos números que podem assustar aqueles que ainda pensam que os veículos ainda não transformaram-se em jornais-empresas.

Exemplos: Dia 15/07/07 – o número de publicidade é maior que o número de páginas com assuntos do interesse do leitor. Das 24 páginas do caderno Brasil deste dia, 13 são páginas inteiras de publicidade, ou seja, cerca de 54%. Nada diferente do que acontecia em 2006.
Dia 27/10/06 – o número de publicidade foi quase igual ao número de matérias de cunho jornalístico. Das 9 páginas deste dia, 4 foram dedicadas a publicidade, cerca de 44%.

Mudanças no modo como os gêneros jornalístico e publicitário se relacionam no jornal impresso apontam para o que chamamos de hibridização ou mistura de conteúdos, o que interfere nos aspectos formais e no sentido conferido a cada um desses gêneros historicamente distintos, mas altamente interdependentes. (MIRANDA, INTERCOM Sudeste 2006).

Não há dúvida de que esta mistura entre os gêneros jornalísticos e publicitários podem causar certas confusões no leitor, muito dos assuntos podem ganhar outro sentido a partir de anúncios, por exemplo, nas páginas da Folha.

Tendo, portanto, que atender a todos os anunciantes e com medo de perde-los em uma próxima oportunidade, o jornal deixa de dar importância ao material jornalístico e passa a interpelar pelas necessidades econômicas. Definitivamente, os veículos tornaram-se empresas e perderam sua principal característica, a de voz revolucionária da sociedade.

Editoria Mundo: A editoria Mundo, é caracterizada no Jornal Folha de S. Paulo, como a que trata de assuntos internacionais. Aparece junto ao primeiro caderno da Folha de segunda a sábado, aos domingos torna-se um suplemento que vem separado do primeiro caderno.

Partimos para uma análise desta editoria, observando o seguinte ponto de vista: os veículos de mídia impressa, não possuem correspondentes internacionais e sim realizam um trabalho burocrático dentro das redações.

Ou seja, as apurações são feitas a partir de ligações telefônicas e os textos são escritos frente a uma visão de veículos internacionais ou a partir de informações que são divulgadas por agências internacionais de notícias.

Resultados: Em 24/10/06 encontramos três páginas dedicadas à editoria Mundo, tratou-se de 8 assuntos internacionais, sendo que destes 4 foram produzidos pela redação (aqui entende-se coletar informações na internet e por telefone para escrever o texto), 3 por jornalistas correspondentes e 1 traduzido de um jornal espanhol.

Em 21/07/07, encontramos números mais burocráticos, vejamos: 4 páginas foram dedicadas a editoria, dos 18 assuntos tratados, 3 foram de jornalistas em loco, 9 traduções de agências ou jornais estrangeiros e 6 desenvolvidos na redação.

Estes resultados nos provam a pouca importância dada pelos veículos a correspondentes. Talvez o custo pode ser alto, mas a pergunta que fazemos é: a informação e a independência editorial não vale?

É importante ressaltar que nós jornalistas somos aqueles que interpretamos os fatos, ou ainda, podemos dizer que somos aqueles que contamos as histórias. Partindo deste princípio todos nós somos diferentes, portanto, cada um de nós canta uma história diferente. Como as informações divulgadas por outros veículos ou por agências é o que predomina no caderno Mundo da Folha, a dúvida pela verdade e pela veracidade dos fatos é algo que nos leva a reflexões.

Conclusão: Durante o desenvolvimento deste trabalho pudemos perceber o quanto ainda falta para que a realidade, ou melhor, para que a verdade prevaleça no processo de construção de um jornal impresso.

Pudemos comprovar que o Jornal Folha de S. Paulo, por meio de seus profissionais e dirigentes, não respeita totalmente o seu manual de redação e estilo, assim como o que diz algumas literaturas selecionadas sobre o assunto. Descobrimos que o editorial é mais do que uma simples opinião, é o ponto de equilíbrio entre todas as opiniões dos profissionais que no veículo trabalham, assim como de todos os anunciantes que divulgam e mantém financeiramente a empresa jornalística.

No caderno Brasil, descobrimos o que chamamos de hibridização, ou seja, anúncios que interferem na produção e na interpretação dos fatos divulgados por um determinado jornal. Um problema que não pode existir. Sabemos da importância do gênero informativo e publicitário, mas estes precisam ser independentes, de modo que um jamais interfina no outro. A publicidade deve ser conseqüência de um bom trabalho informativo prestado por este ou aquele veículo.Na editoria Mundo, o que mais chama atenção é o trabalho burocrático desenvolvido pela redação da Folha. Ao invés de manter repórteres espalhados pelo mundo, prefere fazer uso de traduções e cópias de agências internacionais. Passar para o leitor uma informação a partir de uma segunda ótica é algo que não confere com a credibilidade que a Folha tanto sustenta ter.Sabemos que é difícil manter regras e sustenta-las até o fim. Mas também sabemos que é preciso respeita-las acima de tudo. Precisamos trabalhar com a verdade, precisamos, respeitar aqueles que nos dão tanto prestígio.

Artigo publicado pela revista Janus e pelo site CADIC em 2008
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Fabricio Oliveira
jornalista
fabriciofbo5@gmail.com