Pindamonhangaba e Guaratinguetá tem exemplos que merecem destaque; projetos são responsáveis por desenvolver habilidades e gerar recursos
Texto e fotos: Fabricio Oliveira, Letícia Nunes e Ana Lúcia Andrade
O lixo, atualmente, é um dos assuntos mais discutidos e discutíveis da nossa sociedade. Tema de fóruns e congressos por todo o mundo, modificou as formas de pensarmos nossa economia, política, cultura e meio ambiente. Antes do século XXI objetos pouco valorizados e restos de alimentos, em sua maioria, eram descartados sem reutilização ou reciclagem. Hoje, as necessidades constroem uma outra realidade.
De acordo com dados da UFV (Universidade Federal de Viçosa), mais de 50% do que é descartado pela população brasileira tem condições de ser reutilizado. Ou seja, ações de conscientização ambiental poderiam reduzir pela metade os grandes lixões.
Com o crescimento desordenado das cidades, o nascer de novas indústrias poluidoras e os recentes adventos tecnológicos, surgiram os problemas.
Por não estarmos preparados a mãe natureza vem reclamando e tragédias incalculáveis vem ganhando a machete dos jornais. Para que o desenvolvimento econômico não aumente os impactos ambientais, idéias, projetos e a consciência ambiental começaram a ser armas no combate deste mal.
No Vale do Paraíba Paulista, importante área do Estado entre as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, este objetivo preventivo é desenvolvido e o lixo adquire um novo significado.
Nas cidades de Pindamonhangaba e Guaratinguetá a APAE (Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais) realiza um trabalho de conscientização e preservação ambiental. Atividades recreativas que não somente transformam o lixo, mas que desenvolvem a partir das ações, dificuldades educacionais e sociais que os alunos enfrentam.
Para o geólogo e ambientalista Paulo Valadares, a educação e o meio ambiente funcionam como dois ativos importantes para o planeta. “Questão de cidadania não é só reciclar, mas ver através da educação e do meio ambiente as habilidades que cada pessoa tem, para contribuir com ações e melhorias”.
“Transformar o que para muitos é lixo em instrumento de reabilitação”. Foi com esta frase que começou nossa entrevista com o professor de educação artística, Juliano Moreira Silva, da APAE de Pindamonhangaba, há 136km da capital São Paulo. Durante a semana e que o Brasil se viu envolvido em ações que buscam alternativas para salvar o nosso meio ambiente. Exemplos como o da APAE de Pinda merecem destaque.
“Trabalho aqui na entidade todos os dias, com todas as turmas. Nossas aulas buscam desenvolver o lado criativo destas crianças, a coordenação motora. Como em todas as obras beneficentes a falta de material é uma prática corrente neste constante desafio de superação. Por este motivo nós vemos no lixo de muitas casas uma grande fonte de matéria prima”, afirma o professor. “Seria muito mais fácil ir até uma papelaria e comprar grandes quantidades de material. Como boa parte dos alunos não tem condições financeiras, usamos o material reciclado: jornais velhos, potes plásticos, garrafas pets, tampinhas, etc”.
Durante nossa visita a entidade percebemos a felicidade dos aprendizes. Colar pequenos pedaços de papel e formar lindos desenhos é o mesmo que transformar a nova imagem em uma janela que se abre para um futuro mais limpo e consciente. “Nosso objetivo é fazer com que eles saiam daqui com uma habilidade, que tenham consciência da preservação do meio em que vivem e podem gerar recursos com este trabalho ainda pouco valorizado. Os potes de sorvetes, por exemplo, são transformados em vasos e vendidos em uma feira que a APAE organiza todos os anos”, conclui o professor Juliano Moreira.
Com a idéia de que “na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”, a APAE da cidade de Frei Galvão (há 176km de SP) desenvolve há mais de dez anos uma significativa reciclagem de lixo com os alunos atendidos pela entidade.
O principio citado foi criado pelo químico francês Antoine-Laurent de Lavoisier, e é fonte de inspiração para a transformação de vários objetos, que se não entregues à Associação, seriam colocados no lixo.
O trabalho conta uma equipe de quatro professoras, é dividido em duas partes, Integração Socio Ocupacional (ISO) e Socialização. Na primeira parte atividades em sala de aula são criadas para desenvolver as habilidades dos alunos assistidos. Nesta fase a APAE realiza a reciclagem de garrafas pets, caixa de leite e latinhas de chocolate em pó.
“O projeto ultrapassa a idéia de reciclar, além de usarem a criatividade para transformar o lixo, desenvolvem a coordenação motora e dimensão de espaço para cada criação”, explica a diretora da Apae, Maria Amélia F. M. França Silva.
Na segunda parte da ação é possível ver na prática o que aprendem nas oficinas. “Toda semana vamos na feira do bairro Nova Guará, eles percebem quantas coisas são desperdiçadas e a quantidade de lixo que é jogada no chão e na praça. Já chegamos a recolher uma vez o lixo jogado. Isso mostrou-lhes a importância do trabalho que fazem com a reciclagem e que não basta somente dar um novo destino ao lixo, é preciso adquirir novos hábitos”, ressalta a professora da Integração Socio Ocupacional, Bianca Ap. de Castro S. Bernardo.
O rolo de papel higiênico, por exemplo, quando reciclado, torna-se o porta escova dos alunos. Todo o artesanato produzido pela APAE de Guaratinguetá é exposto na Feira Verde, realizada em outubro e aberta ao público.
Além do projeto destinado aos alunos, a APAE recolhe restos de óleo de cozinha das mães. Os resíduos são encaminhados ao Saeg (Companhia de Serviço de Água, Esgotos e Resíduos de Guaratinguetá), empresa responsável em dar o destino final a este tipo de produto.