Estima-se que 330 mil pessoas passaram pela cidade de Aparecida neste último feriado prolongado. Relatos mostram que para ver Nossa Senhora Aparecida foi preciso esperar cerca de 50 minutos. Empenho e dedicação que podem ser explicados com um única palvara, bem pequeninha mas de grande significado: fé.
A fé que transforma, que motiva, que faz o impossível se transformar em realidade. A fé que ajuda na hora de encontrar um emprego, a fé que orienta-nos nas decisões que nos atormentam. Você, amigo leitor, já imaginou sua vida sem fé?
Aqui falamos de Nossa Senhora Aparecida e de seu dia como padroeira do Brasil, mas vivemos em um Estado laico. Em um país de diversidades religiosas, mas predominantemente de muita fé. Ter fé não é ser católico ou evangélico, ter fé é acreditar em um sentimento misterioso ligado ao emocional, que foge dos princípios concretos, dos quais somos tanto cobrados.
Dainte destas perspectivas cientistas norte-americanos apresentaram ao mundo dois estudos internacionais que indicam que a fé pode nos proteger da morte por problemas cardíacos e/ou por problemas de hipertensão.
Por 30 anos, médicos nos EUA acompanharam a saúde cardiovascular de 6.500 adultos que não apresentavam fatores de risco (obesidade, tabagismo etc.). Constataram menor número de mortes por doenças do coração entre os que seguiam alguma religião.
Outro estudo americano, realizado pela Universidade de Duke com 3.963 pessoas, concluiu que a leitura de textos religiosos, a prática de oração ou a participação em cultos reduziu em 40% o risco de a pessoa desenvolver hipertensão. Com base nesses resultados, a Sociedade de Cardiologia de São Paulo vai discutir pela primeira vez a relação entre espiritualidade e saúde cardiovascular, em um congresso.
"Cada vez mais estudos apontam essa associação benéfica. Os resultados ainda não são definitivos, mas merecem ser discutidos", diz o cardiologista Álvaro Avezum, diretor da divisão de pesquisa do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia de São Paulo. Existem algumas teorias para explicar por que as pessoas religiosas têm menos doença cardiovascular. A principal delas, de acordo com Avezum, é o controle do estresse.
"O estresse aumenta os níveis de cortisol no sangue. Isso eleva a pressão arterial e pode provocar taquicardia -fatores de risco para problemas cardiovasculares. As pessoas espiritualizadas têm maior convivência social e enfrentam os problemas da vida de maneira mais fácil, gerenciam melhor o estresse", diz.
O psicólogo José Roberto Leite, do departamento de Psicobiologia da Unifesp, concorda. "Pessoas que têm uma crença religiosa costumam alimentar expectativas positivas em relação ao futuro."
O geriatra Giancarlo Lucchetti, do Departamento de Neurologia da Unifesp, diz que a dobradinha religiosidade e espiritualidade sempre esteve muito próxima da saúde, embora haja conclusões controversas. "Há estudos que mostram benefícios,outros não. Mas a religiosidade é benéfica não apenas para o coração, mas para a saúde como um todo."
Lucchetti fez um levantamento com 110 pacientes idosos que estavam em reabilitação na Santa Casa de São Paulo. Aqueles que eram mais religiosos tiveram uma melhora mais rápida no tratamento e relataram ter mais qualidade de vida, segundo o médico. Ele alerta, porém, para o fato de que a religião pode atrapalhar o paciente, dependendo da abordagem: "Muitas pessoas acham que um problema de saúde acontece porque estão sendo punidas, porque Deus as abandonou. Isso provoca desfechos piores no tratamento e maior índice de depressão".
Religiosidade, sozinha, não faz milagre, como lembra o cardiologista Marcos Knobel, do hospital Albert Einstein: "Quem só se dedica à religião e esquece de outros fatores não estará mais protegida do que alguém que cuida da saúde, mas não é tão religioso".
Com informações de Gabriela Cupani e Fernanda Bassette
---Fabricio Oliveira
jornalista
fabriciofbo5@gmail.com
