Tragédia no RJ - como explicar?

Pindamonhangaba /SP

Massacre em Realengo/RJ choca o Brasil; Só bullying não é capaz de explicar a tragédia, diz médico

Era quinta-feira. 07 de abril, e o mundo mais uma vez se volta para a cidade do Rio de Janeiro. Desta vez um homem de 23 anos invade uma escola e atira sem qualquer pudor contra crianças inocentes. Resultado: 12 crianças morrem e 190 milhões de brasileiros ficam indignados com a tragédia. Um verdadeiro massacre sem precedentes no Brasil.

Mais como explicar o comportamento de Wellington Menezes de Oliveira, será que algo justificaria um crime tão cruel? Será impossível encontrar respostas, afinal nunca poderemos entrar na mente do assassino para saber de seus reais motivos. Há indícios de que quando criança Wellington sofreu bullying na escola Tasso da Silveira, por isso teria escolhido o local para fazer o massacre.

“É claro que a gente não pode associar que toda vítima de bullying se tornará uma pessoa agressiva. Mas o relato na literatura mostra que muitos alvos de bullying procuram se vingar e culpam a instituição de ensino. Estão investigando isso no Rio também. Outra questão importante é a da doença psiquiátrica. O que causa isso? Basicamente, dois fatores principais: um componente genético e imutável associado a desencadeadores ambientais. O ambiente é o que puxa o gatilho. O bullying pode ser um gatilho importante para uma doença psiquiátrica”, explica o psiquiatra infantil, Gustavo Teixeira, que dá aulas à professores no Brasil e no exterior.

Nos últimos anos, com um certo atraso em relação a outros países, os educadores brasileiros acordaram para os efeitos perversos do bullying. Mesmo assim, ainda estamos atrasados nas políticas de prevenção, que, para darem certo, devem ser constantes, e não episódicas.

O que determina o bullying? “Uma relação desigual de poder. Os alvos de bullying normalmente são crianças tímidas, desajeitadas, retraídas, com autoestima baixa e com dificuldade de se defender. Os agressores são pessoas extrovertidas, que se comunicam melhor, têm uma autoestima preservada. Normalmente são muito covardes e agem em bando”, diz Gustavo Teixeira

Por que algumas vítimas reagem violentamente? “Na grande maioria dos casos, [as vítimas de bullying] cometem suicídio ou ficam sofrendo sozinhas pelo resto da vida. Nesses poucos casos em que ocorre a reação de agressão no sentido de ir armado para a escola e cometer assassinatos em série, existe uma doença psiquiátrica. Foi assim em Columbine e em Virginia Tech [escolas americanas alvos de ataques], parece que é o caso desse garoto no Rio. O que parece ser determinante são doenças psiquiátricas mesmo, seja esquizofrenia, sejam transtornos de personalidade antissocial. No caso do Rio, há indícios de que é um caso de esquizofrenia”.

De acordo com o professor o que existe é uma quebra na personalidade. Que pode ser percebida quando estes começam a dividir o mundo em puros e impuros. Na grande maioria das vezes uma vítima de bullying não vai cometer um crime, mas pode se tornar uma pessoa agressiva com os filhos, a mulher, o cachorro, o irmão mais novo.

“Felizmente nas escolas brasileiras, o pessoal está começando a entender o que é e dar a importãncia devida. Agora, em termos de programas ocorrendo de maneira sistematizada, ainda é muito raro. São pouquíssimas instituições de ensino no país que já trabalham isso. Foi dada a largada, agora o que a gente precisa de fato é implementar essas técnicas para a gente cuidar da saúde mental das nossas crianças”, conclui o professor Gustavo Teixeira.